2 de julho de 2017

Arte - Dança - Tango


Deixar-se levar pelo compasso do bandoneón, pelo abraço na pista de baile, pela poesia salpicada de nostalgia dos tangueiros, para conhecer a fibra mais íntima de uma cidade.

Nas ruazinhas empedradas dos subúrbios. Nas faixadas das centenárias casas de imigrantes. Nos bares, nas livrarias e nas disquerias do centro da cidade. Nas tanguerias e nas milongas onde se dança abraçado. Buenos Aires vive ao compasso do 2x4. O tango é uma expressão musical e uma dança sensual, mas é também, muito mais que isso. É uma linguagem particular- o lunfardo- vinculada à imigração e aos arrabaldes porteños- um jeito de se vestir e de andar, uma forma de vida. Declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 2009 o tango é a marca registrada no Rio da Prata.

De origem marginal e prostibular, durante a primeira metade do século XX, o tango se tornou a música da cidadania por excelência. As marcas daquela época dourada estão hoje nas imagens omnipresentes de Carlos Gardel “el zorzal criollo” que, dizem os porteños “cada dia canta melhor”. Nos nomes das ruas de Buenos Aires que homenageiam músicos e poetas de tango: Enrique Santos Discépolo, Cátulo Castillo, Aníbal Troilo, Roberto Goyeneche. Percorrer os bairros tipicamente tangueiros é uma boa forma de conhecer a mítica desta música porteña. Embora seja frequente encontrar vestígios de tango em qualquer esquina da cidade, músicos de rua que tocam o bandoneón e casais que dançam para depois “passar o chapéu” -pasar la gorra- (na clássica rua de pedestres Florida, nas praças da charmosa Recoleta), existem bairros emblemáticos pela sua história vinculada ao tango.

Na Buenos Aires do século XXI, o tango não é só uma lembrança. A cultura do 2x4 conta com uma cena tangueira renovada, alimentada por novas gerações de músicos que fusionam a música cidadã com outras expressões musicais, ou simplesmente a adaptam à sensibilidade musical desta época. Quando cai a noite na cidade, o tango se manifesta com toda sua sensualidade e seu encanto nas casas de tango, milongas, shows e espetáculos teatrais de alto impacto. O circuito é amplo e diverso e se concentra principalmente nos bairros da zona sul, onde orquestras, cantores e dançarinos de primeiro nível oferecem propostas clássicas e de vanguarda, que estão acompanhadas por um magnífico jantar autenticamente argentino (entre o tango, o churrasco, as empanadas e o vinho, instalou-se uma curiosa união plena de prazeres). O que prevalece nesta experiência é o virtuosismo. Os casais de dançarinos ensaiam passos dificílimos, com giros, voltas e saltos. O vestuário é luxuoso. Os cantores e as orquestras acompanham de maneira maravilhosa, aportando o glamour à noite tangueira de Buenos Aires.


Menos conhecidas, mas nem por isso menos atraentes, são as milongas (no centro e nos bairros de Almagro, Abasto e Palermo), onde o objetivo é dançar até gastar a pista. Longe do conceito de espetáculo, nas milongas populares todos são protagonistas. Aqui o tango não se contempla, se vive. Na pista de baile, confundem-se expertos, aficionados, principiantes e curiosos de todas as idades. Algumas milongas começam com aulas de dança onde se aprendem os 8 passos básicos. Para tomar aulas é preciso chegar cedo. Depois, é só se deixar levar. A improvisação é uma das características mais fascinantes do tango.

O tango se desfruta em Buenos Aires durante o ano inteiro, mas no mês de agosto os amantes da música cidadã têm um encontro inevitável: o Festival e Campeonato Mundial de Tango. Concertos multitudinários, milongas ao ar livre, exposições de desenho tangueiro, convertem o tango em uma verdadeira festa porteña.



 maria tereza cichelli

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