28 de julho de 2017

Cultura - Relatos - Flip 2017 - Scholastique Mukasonga


A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) já havia tido em anos anteriores mesas chamadas "Em nome do pai" (duas vezes) e "Em nome do filho" (uma vez). Estava faltando "Em nome da mãe", lembrou a curadora desta 15ª edição, Joselia Aguiar, na abertura do debate que zerou a lacuna e encerrou a programação desta quinta-feira (27).

O encontro reuniu a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga e a escritora brasileira Noemi Jaffe. Pontos em comum: obras francamente inspiradas na história de suas mães e marcadas pela guerra.

Scholastique perdeu a mãe e vários outros familiares no genocídio de Ruanda, em 1994. Já Noemi é filha de uma sobrevivente de Auschwitz, o campo de concentração nazista da Segunda Guerra.

"O genocídio que fez de mim uma escritora", afirmou Scholastique, autora de "A mulher de pés descalços" (Nós), no qual a história da mãe tem papel central.

"A especificidade do genocídio é que você tem mortos sem corpos, e eu tinha que encontrar meios para dar uma sepultura aos meus. Tinha de tirá-los dessa vala comum. E a solução que se apresentou diante de mim foi essa de construir uma sepultura com as palavras, fazer um túmulo de papel."

A autora disse que a mãe costumava fazer um pedido às filhas: quando eu morrer, cubram o meu corpo. "Eu não pude cobrir o corpo dela. E, mais uma vez, as palavras a escrita me permitiram tecer essa mortalha para cobrir o corpo da minha mãe".

'A gente continua cego'

Noemi Jaffe é autora de "O que os cegos estão sonhando?" (Editora 34). O livro é escrito a partir do diário da mãe, que hoje está exposto no Museu do Holocausto.

Citando o título da obra, afirmou: "Na minha interpretação, a gente continua cego. Acho que as shoás continuam acontendo".

"Não dá pra gente estabelecer comparações entre genocídios, mas em 1994 houve um genocídio inominável sobre o qual muito pouca gente sabe, que é o genocídio de Ruanda. Níveis de tortura que não vi em nenhum livro sobre o nazismo. O que está acontecendo na Síria, em vários lugares... A gente continua cego."

Também apontou diferenças entre o seu caso e o da colega de debate. "Ela escreve a guerra, eu escrevo sobre a guerra. Além de saber que tenho uma mãe que passou por aquilo, tenho uma culpa inexplicável e meio absurda por não ter passado por aquilo, uma vontade de poder ter estado lá para impedir que aquilo tivesse acontecido, como se eu pudesse fazer alguma coisa..."

Tragédia e drama

Noemi comparou: "Se a minha mãe viveu a tragédia, eu vivo o drama, a história que se cria sobre a tragédia. Então o dramático tem certa inveja do trágico". De acordo com ela, escrever sobre isso é uma espécie de missão.

E Scholastique Mukasonga usou o mesmo termo: "Simplesmente, eu tinha uma missão. E essa foi a razão pela qual eu não fui abatida pela machadinha e pelos facões. Meus pais não queriam que um povo desaparecesse sem que ficasse qualquer vestígio. Esse encargo era pra mim. Tinha de salvar essa emória e fui escrevendo. Meu medo, meu fantasma era que a memória podia se apagar de um segundo para o outro". 

G1


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